Mesmo com as portas fechadas, muito empresários encontram forças para ajudar quem mais precisa

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Mesmo sem a previsão de quantos dias durará o isolamento social e qual será o impacto nos rendimentos, é possível encontrar microempreendedores que encaram as dificuldades provocadas pelo coronavírus com motivação e inspiração solidária. São pessoas que se sensibilizam com a dor de quem se encontra do lado mais frágil na sociedade e estendem a mão para ajudar quem está em situação de risco. E aí, vale lembrar, que essas ações passam longe daquilo que convencionou-se chamar de “propósito da empresa”, uma vez que, muitas vezes, nem a empresa existe mais para se beneficiar de eventuais dividendos.

É o caso de Maria da Paz de Brito. Dona de uma pequena loja de confecção em Brasília, a empresária se viu obrigada a fechar as portas da empresa em meados de março. No entanto, que passa no estabelecimento ainda ouve o barulho das máquinas de costura funcionando. É que o comércio fechado, mas a empresária está presente. Maria conseguiu reunir dez costureiras voluntárias para, juntas, encararem a missão de fornecer à comunidade uma das principais defesas contra o novo coronavírus: as máscaras faciais.

A ideia veio do pastor da igreja da empresária, que queria máscaras para distribuir a moradores de rua que foram acolhidos pelos religiosos. Abraçando a causa, Maria usou retalhos de lençol doados por clientes e amigos para costurar 250 peças. Depois, foram feitas mais 180. Em seguida, mais 200.

Em meio a essa movimentação, uma cliente a procurou para contar que a filha médica e os colegas estavam sem poder trabalhar com segurança, pois o hospital também já estava sem o material.  Na mesma hora, comprou 150 peças. Depois, chegaram mais pedidos e, com a ajuda das amigas de costura, Maria da Paz produziu e doou ao hospital público de São José dos Campos cerca de 5 mil máscaras e 1.500 jalecos.

A partir daí, a produção só cresceu. E o volume de doações e vendas também. A maior parte do valor arrecadado com as máscaras vendidas é destinada à compra de alimentos para o abrigo dos moradores de rua e para montar cestas básicas entregues a famílias que, devido à quarentena, estão impossibilitadas de trabalhar. A outra parte vai como um pagamento simbólico de R$ 100 ou R$ 120 para as costureiras que abraçaram a causa.

A empresária diz que não reserva valor algum. Para ela, a recompensa “fica a cargo de Deus”, que ela aguarda para “quanto isso tudo passar, porque vai passar”.

Dessa iniciativa foram consolidados outros três grupos: o “Amigos do Bem”, o “Amigos que Ajudam” e o “Turma da Mônica Quatro por Quatro”. Animadas, algumas dessas costureiras chegam a se deslocar de regiões distantes para chegar à loja. Outras, fazem as costuras de casa mesmo. São moradoras de Santa Maria, Valparaíso, Ceilândia e Sobradinho, cidades satélites de Brasília.

A meta é conseguir produzir 250 máscaras por dia. Para isso, ela dorme três horas por noite. Uma produção intensa de quem está preocupada com o alcance que a pandemia ainda pode chegar. E, se depender delas, “ninguém vai correr o risco de pegar essa doença por falta de proteção”.

Quarentena embelezada

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Fornecedora das flores que ornamentam um shopping de Brasília, Iza Costa Oliveira colocou a criatividade em ação quando soube que o centro comercial precisaria suspender o contrato durante o período em que estivesse de portas fechadas. Com cerca de 200 orquídeas em estoque, ela então decidiu lançar uma promoção para atingir os idosos que estavam confinados por conta da Covid-19. A oferta foi anunciada no perfil de uma rede social e enviada para uma lista de transmissão em um aplicativo de mensagens onde ela já reúne 180 clientes, gerando um resultado que, segundo ela, foi mais que positivo.

Em menos de 20 dias pagou suas contas e passou a operar no azul. Além do alívio financeiro, ela se diz satisfeita em colaborar, de algum modo, para levar alegria para quem está sozinho e em fragilizado durante a pandemia.

Com as contas em dia, a sobra do que é arrecadado tem uma destinação ainda mais especial. Todos os meses, Iza leva doações para abrigos de idosos no DF. Duas casas estão na rota principal da florista: o Lar dos Velhinhos Maria Madalena e a Casa do Idoso de Luziânia. São doados itens como

Iza reconhece que a ideia deu certo devido a um fator em particular. A internet e as estratégias de e-commerce já lhe eram conhecidos. O meio virtual foi ambiente escolhido pela empresária desde 2015 quando, por orientação da filha, Iza decidiu fechar a loja que administrava, na Asa Norte, desde 1992. O negócio gira todo em sua residência, onde ela armazena as plantas que chegam direto dos fornecedores. Ali mesmo, são preparados os buquês para entrega em domicílio.

Agora, a empresária já pensa em adotar uma campanha de propósito para a empresa. Mas, primeiro, planeja a ação para a época festiva do ano que mais demanda do ramo de floricultura: o Dia das Mães. “O negócio é a promoção. Além de colocar amor naquilo o que faz, você tem que fazer algo diferente”, sugere. Para a celebração, ela prevê contratar mais 1 ou 2 floristas para preparar os buquês e dois motoristas para ajudar nas entregas, que também deverão ocorrer em meio à quarentena. “Tudo muito higienizado, com bastante cuidado pra ninguém correr risco!”.

Pão para quem precisa

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Uma padaria Goiânia chama a atenção pela solidariedade. O estabelecimento criou o projeto “Padaria do Amor” para doar pães a quem não possui condições de comprá-los e tem fome. Para a dona da panificadora, Mariana Rocha, se trata de um ato de solidariedade em meio às dificuldades causadas pela pandemia de coronavírus.

Segundo a proprietária, a ideia da “Padaria do Amor” surgiu quando ela e a família organizavam cestas básicas para doação. Ela pensou que também poderia ajudar com alimentos produzidos pela própria panificadora, no Setor Santo Antônio.

“Nós sempre doávamos pães para igrejas e pessoas que passavam na porta e nos pediam, mas nesse momento que estamos vivendo de dificuldade econômica se faz ainda mais necessário. Não há nada melhor do que poder ajudar, poder evangelizar as pessoas através do amor, com o que a gente pode”, disse Mariana.

Sorriso por trás da máscara

Dois dentistas de Belo Horizonte, o casal Patrícia Bertges e Vinícius Araújo, resolveram usar recursos próprios e se unir a empresários e entidades sociais para produzir viseiras de policarbonato a fim de ajudar na proteção contra a COVID-19. A peça é produzida numa impressora 3D e garante mais proteção a profissionais da saúde do que as máscaras comuns. “Estávamos conversando e percebemos que tínhamos os recursos para ajudar as pessoas. Então, juntamos nossas forças”, explica a dentista Patrícia Bertges em entrevista ao Jornal Estado de Minas.

O material produzido pelas impressoras 3D, que antes da pandemia eram utilizadas para imprimir resinas e porcelanas, é mais seguro para os profissionais da saúde do que as máscaras descartáveis. “Além de serem feitas de um material resistente, ficam prontas rapidamente e são reutilizáveis, bastando apenas higienizar o material após o uso. Muitos especialistas no mundo inteiro recomendam essas viseiras em lugar das máscaras”, diz o dentista Vinicius Araújo.

A proteção está sendo doada para asilos e profissionais da saúde. Na próxima quinta-feira, uma remessa de 220 viseiras será entregue no Centro de Convivência Paulo Fagundes Fonseca Penido, localizado no Bairro Bonsucesso. “Admito que meu maior gatilho para fazer isso tudo foram os idosos nos asilos. A gente já faz um trabalho solidário nesse sentido. Mas imaginar que essas pessoas, que muitas vezes foram abandonadas e estão no grupo mais alto de coronavírus não iam ter proteção, foi isso que me motivou”, afirma Patrícia.

Fonte: CNDL

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